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26/11/2012 | Colunista: Cláudia Mogadouro

Música e Cinema

Documentários musicais ajudam a compreender o Brasil

A música é uma das linguagens artísticas fundamentais para a vida e para a formação de crianças e jovens. Conhecer a produção, aprender a ouvir e tocar instrumentos são competências que deveriam integrar os currículos escolares. No Brasil o ensino de música voltou, recentemente,  a integrar a escola básica. Além disso, projetos de orquestras jovens, em regiões pobres e sem acesso a equipamentos e informação cultural têm possibilitado mudanças importantes na vida de jovens e de suas comunidades.

A riquíssima música popular brasileira, fruto de influências tão variadas como a melodia europeia, o pulso africano, a harmonia jazzística dos norte-americanos, dentre muitas outras, tem sido um dos principais elementos de agregação da juventude, qualquer que seja o estilo. A maioria dos jovens faz - ou gostaria de fazer – parte de grupos de rock, de samba, de rap ou de chorinho. 

É interessante o quanto a música se revela um caminho fértil para abrir a curiosidade dos jovens – e mesmo das crianças – para aspectos históricos, políticos e sociais do Brasil, assim como para a linguagem escrita (poesia, especialmente). 

E como é o diálogo da nossa música com o cinema?

Desde o início do cinema no Brasil, no início do século XX, a música esteve presente além da trilha sonora. Nos filmes mudos, a música era executada ao vivo. Os chamados “filmes cantantes” e, posteriormente, as chanchadas da Atlântica se apoiavam nos sucessos do rádio, como Carmen e Aurora Miranda, Noel Rosa, Lamartine Babo, Ary Barroso, entre outros. O público aprovou, pois tinha a opção não apenas de ouvir seus mais queridos artistas, mas vê-los na tela.  

O lendário Mazzaropi comumente inseria em suas tramas números musicais, protagonizados pelos principais artistas dos anos 1960 e 70. Quando estoura o sucesso da jovem guarda, o cinema também se apropria da linguagem musical, produzindo filmes com Roberto Carlos como ator principal, como foi o caso de Roberto Carlos em Ritmo de Aventura (1967), entre outros.

Nos tempos recentes, três fenômenos que interligam a linguagem musical com a audiovisual são dignos de nota. Um deles é o clip musical, que se popularizou de tal forma em algumas emissoras de TV, que estimularam uma nova geração de cineastas especializada em clips. O outro fenômeno é o DVD derivado de espetáculos musicais. Com as novas tecnologias, os músicos não necessariamente produzem CDs, mas, sim, DVDs dos shows. 

O terceiro fenômeno vem ocorrendo de uns 15 anos pra cá: são os documentários musicais, que se constituem realmente como filme (com roteiro, filmagens, montagem etc) e já são considerados um subgênero dos documentários. Vários artistas da música popular brasileira têm sido retratados pelo cinema. Bem mais densos que clips e shows, eles apresentam a trajetória de grandes artistas, com contextualização na história do Brasil e no movimento musical em que o artista se insere. Para os professores, essas produções são joias raras como material pedagógico.

Um dos primeiros que mereceram destaque dessa safra de produções musicais foi Paulinho da Viola – Meu Tempo é Hoje (2003), dirigido por Izabel Jaguaribe. Neste filme, não apenas pode-se conhecer a extensa obra musical do sambista, mas sua história, seu jeito de ser, sua visão de mundo. 

A geração mais antiga da música popular, considerada até hoje responsável pelas maiores pérolas do nosso cancioneiro, pode ser mostrada aos alunos a partir desses documentários. A vida conturbada de Vinícius de Moraes – poeta, diplomata e compositor popular - pode ser conhecida pelo filme Vinícius (2003), de Miguel Faria Jr, que entremeia declamação dos poemas, canções e depoimentos (muitos deles bem divertidos). E também:

Um Homem de Moral (2009), de Ricardo Dias, conta a vida do cientista-compositor Paulo Vanzolini, que, através de suas canções, fala da história da cidade de São Paulo. Provavelmente, muitos estudantes conhecem suas músicas (Ronda, Volta por cima) sem saber que foram feitas pelo diretor do Museu de Zoologia da USP, situado no bairro do Ipiranga.

Cartola – Música para os Olhos (2007), dirigido por Lírio Ferreira, conta a vida do pedreiro que também foi um grande poeta e compositor. Não é um filme linear, exigindo bastante do espectador e entremeando vários episódios da história brasileira recente. O mesmo diretor realizou também O Homem que Engarrafava Nuvens (2009), que conta vida de Humberto Teixeira, o parceiro tão pouco conhecido de Luiz Gonzaga. A narrativa também mostra a importância do forró para inserir a região nordeste no cenário cultural brasileiro. 

O grande cineasta Nelson Pereira dos Santos recentemente realizou o filme A Música Segundo Tom Jobim (2011), sem uma única fala, somente música, com intérpretes do mundo todo.

A geração de compositores populares que hoje está (ou estaria) com 70 anos também está retratada nos documentários. Em Coração Vagabundo (2008), o diretor Fernando Andrade mostra um pouco da vida de Caetano Veloso, a partir de uma turnê, especialmente sua relação com os cineastas Pedro Almodóvar e Michelangelo Antonioni. 

Também a partir de uma turnê de Gilberto Gil, em Viva São João! (2001), o cineasta Andrucha Waddington traça um panorama sobre a história das festas de São João pelo país e sua importância nas comunidades locais.  

A polêmica história do cantor acusado de ser um agente da repressão militar está no documentário Simonal - Ninguém sabe o duro que dei (2009), dirigido por Micael Langer, Calvito Leral e Cláudio Manoel. Vários depoimentos esclarecem a história deste cantor no contexto do regime militar, mostrando o clima vivido, especialmente pelos artistas, naquele período.  Para a geração atual que conhece apenas o filhos de Simonal  (Simoninha e Max de Castro) é uma oportunidade de conhecer este artista, considerado o maior cantor brasileiro nos anos 1960. 

São 13 os DVDs que discorrem sobre a vida e a obra de Chico Buarque de Holanda, cada um abordando um aspecto de sua arte (poesia, eu-lírico feminino, política, teatro, cinema, futebol, criança, entre outros). O diretor Roberto de Oliveira compõe depoimentos recentes de Chico com vários antigos, resultando em verdadeiros tratados de época.  O conjunto desses DVDs faz parte do acervo das escolas da rede pública de São Paulo, assim como o documentário que conta, musicalmente, a vida de Edu Lobo - Vento Bravo (2007), com direção de Beatriz Thielmann Regina Zappa. 

Para os que gostam de rock, dois filmes muito importantes que estrearam recentemente no cinema, estarão disponíveis em DVD, em breve. Ambos retratam artistas que até hoje causam furor entre a juventude. Walter Carvalho realizou um contundente documentário sobre Raul Seixas - Raul – o Princípio, o Fim e o Meio (2012), com depoimentos realistas que, embora mostrem sua decadência física e artística, garantem o respeito, a memória e a justa homenagem à sua relevante carreira. Pode ser um bom gancho para se discutir o envolvimento de artistas com álcool e drogas, sem nenhum glamour. Ao contrário, ao ver o filme, lamentamos pela morte precoce do artista. O irmão de Walter – Vladimir Carvalho – documentou as bandas de rock surgidas em Brasília, no início dos anos 1980, quando a capital do país fervilhava política e culturalmente com o período final do governo militar. Rock Brasília – a Era de Ouro (2011) retrata o surgimento dos grupos Legião Urbana, Paralamas do Sucesso, Capital Inicial, Plebe Rude, entre outros. A rebeldia politizada das canções de Renato Russo até hoje é cultuada pelos jovens, os professores bem sabem disso.

Outros documentários musicais falam de um determinado movimento musical, como Uma Noite em 67 (2011), sobre a era dos festivais, dirigido por Renato Terra e Ricardo Calil. Brasileirinho (2005), de Mika Kaurismaki, uma homenagem ao choro; O Mistério do Samba (2008), sobre a Velha Guarda da Portela, de Carolina Jabor e Lula Buarque de Holanda. E o documentário de Helena Solberg Palavra (En) cantada (2008), sobre a relação das letras poéticas com as músicas populares.
Cláudia Mogadouro

Cláudia Mogadouro

Cláudia é doutora em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da USP. Graduada em História, especialista em Gestão de Processos Comunicacionais, mestre em Ciências da Comunicação pela ECA-USP e pesquisadora do Núcleo de Comunicação e Educação da USP.

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