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16/07/2014 | Fonte: Desirèe Luíse

Quanto mais Millôr, melhor: humor e crítica de um cartunista versátil

Entrevista traz as características do homenageado da Flip deste ano

Poeta, prosista, jornalista, dramaturgo, roteirista de cinema e escritor de peças teatrais. Milton Viola Fernandes, mais conhecido como Millôr Fernandes, deixou vasta produção em seus mais de 70 anos de carreira para além do campo que ficou mais consagrado como cartunista, humorista e crítico ferrenho. Millôr será o autor homenageado da 12ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que acontece entre 30 de julho e 3 de agosto. 

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Pela primeira vez na história do evento, o destaque vai para um autor contemporâneo. Millôr era autodidata, característica que o também contista e cartunista Leandro Leite Leocádio acredita ter possibilitado  “liberdade maior a ele do que o academicismo, podendo lidar e trafegar mais livre em cada gênero, de acordo com seu interesse”, diz.
 
Leocádio trabalhou com Millôr em veículos como no jornal “O Pasquim”. “Ele acreditava que era um homem livre e precisava percorrer essa liberdade, então escrevia sobre o que quisesse. Chegou a pedir demissão quando proibiam ou alteravam o texto dele”, conta. Em entrevista ao NET Educação, Leocádio fala mais das características do autor, e da importância de trabalhar Millôr com os jovens por meio de linguagem visual, como as charges. “O humor proporciona estudo diversificado e interdisciplinar”, ressalta.
 
NET Educação – Diante de uma produção tão vasta, o que destacaria da obra do Millôr?
 
Leandro Leite Leocádio – Ele conseguia andar por todos os gêneros textuais. Um homem extremante inteligente, de um talento imensurável. Tinha em sua formação uma peculiaridade: ser autodidata. Acredito que essa característica e, portanto, uma maneira diferente de formação tenha dado liberdade maior a ele do que o academicismo, podendo lidar e trafegar mais livre em cada gênero, de acordo com seu interesse. Apesar da produção teatral e regionalista ter qualidade incalculável, acredito que as charges e o humor deram maior visibilidade para ele. Mas Millôr também fazia, por exemplo, haikais [pequena poesia com métrica e molde orientais].
 
 
NET Educação – A marca do Millôr era o cartum, a imagem, e o que mais citaria?
 
Leocádio – Ele era muito bom em tudo que escrevia. Poderia destacar no teatro, como uma contribuição para a literatura, a peça “É...”. Traz um humor sarcástico e cáustico, importante para a formação ideológica do país num momento complicado, o da ditadura. Também contribuiu para a literatura brasileira com traduções de Shakespeare, Sófocles e Molière, por exemplo, mantendo uma incrível qualidade e fidelidade ao texto original.
 
NET Educação – E com relação a suas características, sua marca?
 
Leocádio – O humor está sempre presente em toda sua obra. Não tem como fugir disso. Mas não é um humor pastelão [característica de situações forçadas e personagens nonsense], é altamente inteligente e crítico, principalmente. Humor é filosofia, para entender e rir é necessário compreender a crítica. Ele tinha a percepção cultural e social e sutileza ao se referir a isso, estabelecendo diálogo com as pessoas por meio das obras. O humor do Millôr dilui, tira do altar a política, a literatura, a economia e coloca num patamar mais acessível para o cidadão.
 
NET Educação – Como uma das ações educativas da Flipinha, você ministrou a “Formação Millôr Fernandes”. O que foi pontuado?
 
Leocádio – A experiência foi fantástica. Trouxemos aos professores, diretores e coordenadores pedagógicos um conhecimento para eles começarem a introduzir o autor para os alunos. Pessoalmente, eu imaginava o Millôr mais popular. Mas alguns conheciam só o rosto, outros só uma ou outra obra. Por exemplo, muitas pessoas repassam e-mails de correntes que divulgam textos como sendo dele, mas quem conhece as características percebe de imediato que jamais poderia ser do Millôr. Gera uma falsa faceta do autor.
 
 
NET Educação – Seria interessante trabalhar o autor com qual perspectiva?
 
Leocádio – Com certeza o humor e a ilustração. Charges são porta de entrada para dialogar com o ensino médio e fundamental. Tem uma linguagem mais dinâmica, mexe com vários outros sentidos. O humor proporciona estudo diversificado e interdisciplinar. Pode-se usar textos do autor para ilustrar ou iniciar debates sobre Segunda Guerra, comunismo, capitalismo, ditadura... Assim, são textos ricos para serem debatidos não só na literatura, mas na sociologia, geografia e história.
 
NET Educação – Tem indicação de materiais que poderia ser usado ou obra que julga ser emblemática?
 
Leocádio – O livro “Millôr Definitivo – A Bíblia do Caos” é um volume grande de aforismos e haikai, traz humor e críticas. Com essa obra é possível conhecer bem a personalidade, o pensamento, a lógica e estética do Millôr.
 
NET Educação – “Sua crítica ao poder é fundamental no Brasil de 2014”, afirmou o curador da Flip, Paulo Werneck, em relação ao Millôr. Poderia comentar?
 
Leocádio – A crítica dele é muito filosófica, política, e continua atual. Os problemas de hoje relacionados ao poder são, infelizmente, os mesmos de décadas atrás. Não estamos numa ditadura, mas ainda assim respondemos por algumas agruras. Vemos as manifestações gritando pelo país e cabe a leitura de Millôr, pensarmos sobre o que ele já mostrava há muitos anos. Já criticava políticos, por exemplo, como o José Sarney, e corrupção.
 
NET Educação – Ele não só focou sua produção em uma temática específica, como a política ou a ditadura. Trazia o dia a dia?
 
Leocádio – Sim, trazia também muitos assuntos do momento. Se tivesse vivo, escreveria do 7 a 1 da Alemanha sobre o Brasil [nas quartas de final da Copa do Mundo]. O que é interessante de falar da ditadura em Millôr é que ele tinha a valentia que muitos outros não tinham. Foi demitido de vários jornais e revistas em nome da liberdade. Ele acreditava que era um homem livre e precisava percorrer essa liberdade, então escrevia sobre o que quisesse. Chegou a pedir demissão quando proibiam ou alteravam o texto dele. Ele era apartidário, não tinha filosofia específica ou religião, porque imaginava que se prender a isso, estaria podando sua liberdade.
 
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